Aceita-se a liberdade ou não?


Ter a possibilidade de controlar o que se passa no próprio corpo é o pré-requisito básico de qualquer local que se diga livre. A pergunta aqui feita, qual seja, se "aceitaríamos" a legalização das drogas é um indício de que não somos livres. A sensação de que se pode interferir na vida íntima de um indivíduo é uma marca da necessidade de criação de homens aptos para a realização de tarefas imprescindíveis para a manutenção do poder e da dominação. Um homem pleno é aquele pronto para o trabalho (servir o mercado), pronto para a guerra (servir a pátria) e pronto para a família (para servir o divino). O corpo sempre apto para o exercício da submissão é o que está por detrás da ideologia contra as drogas.

A visão das drogas como obra do diabo é outra peça fundamental para a interpretação dessas substâncias que foram usadas por todo o sempre e sempre o serão. Tem-se a idéia de que as drogas destroem o indivíduo. Verdadeiro? Sim, pode ser verdadeiro. Mas mesmo destruindo em alguns casos, como se justifica a criminalização do seu uso? Se alguém se destrói com a utilização de substâncias nocivas à sua própria saúde, como algo exterior a ele lhe proíbe de interpretar a sua realidade e fazer de si aquilo que deseja (mesmo que seja a sua destruição)? Ora, o indivíduo não pode se destruir, o indivíduo necessita servir.

Porém, as drogas não têm um efeito tão maléfico quanto todas as terríveis propagandas publicitárias contra elas juram ter. Ademais, o fato de serem proibidas é o sinal de que o seu uso traz algum prazer ao usuário (se não trouxessem, não seriam proibidas, pois apenas sádicos as usariam). Os efeitos variam, como se sabe, e cada uma pode exercer um papel diferente na consciência do indivíduo. Não gostaria de entrar naquele chicle de que as drogas podem ajudar o homem a pensar coisas que não pensaria caso estive em pleno estado de consciência, contudo, também não negarei tal fato que é óbvio para quem possui sinceridade intelectual. Basta ler Sartre, Huxley ou escutar Heroin do Velvet Underground para entender as benesses que não estar em pleno estado de consciência pode trazer.

Por outro lado, não vou, obviamente, dizer aqui que as drogas são algo que eleva a inteligência e o senso crítico da humanidade. Em muitos casos é exatamente o oposto: além de entorpecer totalmente as faculdades mentais (e em alguns casos, o entorpecimento pode ser eterno [cogumelos e afins]), intoxicam o corpo e o destroem pouco a pouco (heroína e afins).

Como se percebe, este texto está repleto de "pode ser" e com poucos "é". Tratando de um tema como este, é impossível ser enfático. Dizer que as drogas representam isto ou aquilo é autoritarismo, falta de sinceridade com os fatos ou puro desconhecimento da realidade.

Já falei sobre as justificativas utilizadas, em geral, para dar razão à proibição das drogas em outro texto, mas vou repetir aqui uma vez que o tema foi trazido à tona. As duas mais fortes dizem respeito à violência "gerada pelas drogas". A primeira é a violência do usuário; a segunda, a violência gerada pelo tráfico.

A primeira é complexa, mas vamos a ela.

Peguemos alguns exemplos (os mais conhecidos): maconha, cocaína, ecstasy, LDS e heroína não têm a combinação química da violência em suas composições. Pelo contrário, maconha é depressor do sistema nervoso, o que dificulta o indivíduo tornar-se violento. No caso da heroína, a coisa segue o mesmo caminho, porém, com efeitos mais fortes: o chamado "orgasmo abdominal" é o prazer intenso causado quase instantaneamente, pois ela é imediatamente transformada em morfina no cérebro. Ou seja: seria possível falar de uma possibilidade do indivíduo se tornar violento no uso de cocaína, ecstasy e LDS, as duas primeiras drogas estimulantes e o LDS, um alucinógeno.

A cocaína retarda a sucção da dopamina e noradrenalina pelos neurônios, aumentando a quantidade desses neurotransmissores no cérebro. Tais substâncias são necessárias em caso de estresse, quando o indivíduo necessita de todas as suas forças ou quando precisa de pensamento rápido. O uso da cocaína é a concentração dessas substâncias e o aumento de todos os itens relacionados acima.

O ecstasy é algo parecido, só que a substância que os neurônios não sugam é a serotonina. O seu efeito é mais prolongado do que o da cocaína e é geralmente usado em boites noturnas.

A pergunta é: onde está a "violência", o "crime", ou a "crueldade"? Das drogas aqui descritas, as únicas que interferem na forma de pensar do homem são a maconha e a heroína, mas pelo fato de serem depressoras, os seus usuários não deveriam ser temidos como "laranjas mecânicas" pela sociedade. As drogas estimulantes, como a cocaína e o ecstasy, têm o efeito de exaltar as sensações do homem. Não são agentes da violência; são agentes da potencialização do homem. Caso o que o homem tenha em si seja o ódio, o ódio será potencializado, mas não necessariamente. Resta o LSD: este sim estimulante e alucinógeno.

O LSD age também sobre serotonina e noradrenalina, porém, mais do que isso, inibe a atividade dos neurônios da Rafe, responsável pelas faculdades visuais e sensoriais, gerando a alucinação. Os efeitos variam de experiências consideradas "místicas", visualização acentuada de cores, assim como paranóia, confusão e despersonalização. Contudo, gostaria de perguntar se alguém conhece alguma vítima de usuários de LSD. Talvez um ou dois, afinal, buscando estatísticas pela internet de "crimes" causados por usuários de LSD, a única coisa que encontrei foram os crimes de tráfico e de produção da droga.

O segundo argumento da violência das drogas, a causada pelo tráfico, é bem mais simples. O tráfico causa mortes porque é proibido. Por ser proibido, os vendedores precisam se armar e enfrentar a polícia. Tal enfrentamento gera violência e uma briga de forças em que o poder diz ser ilegal consumir aquilo que traficantes querem vender e obter lucro com este negócio que, sim, é muito lucrativo. Drogas nunca deixarão de ser utilizadas por mais que infestem de polícia cada quarto das casas brasileiras. A proibição força a violência contra essa invasão da vida privada do indivíduo por parte do poder. O que gera o embate violento? A proibição. Quem proíbe? O Estado. Quem é responsável pela violência? O Estado com a sua proibição.

Como já descrito acima, o uso das drogas pode ter um efeito muito agradável sobre o usuário e tal fato assusta quando se tem em conta os problemas que a dependência traz. No entanto, convém aqui lembrar que depois do momento de prazer oferecido pela droga, a seqüência é a inevitável depressão. Todos os usuários sabem que o momento seguinte do uso dessas substâncias será a tristeza e a melancolia. A impressão de que o resultado da descriminalização das drogas seria o caos absoluto não é verdadeiro, primeiro porque são poucos os que querem estar entorpecido o tempo todo e, segundo, porque a utilização de tais substâncias traz já em si este controle: a "rebarba" (como é conhecida a depressão posterior ao efeito gerado por elas) não é desejada. A depressão faz da utilização das drogas por pessoas estabilizadas psiquicamente algo esporádico. Já a dependência surge quando o indivíduo necessita fugir da realidade o tempo todo e não suporta o momento em que precisa encará-la da forma como se apresenta e tampouco pode lidar com a depressão seguinte, fazendo do seu uso algo contínuo. Volta-se à pergunta: o problema se encontra nas drogas ou em fatores externos?

A dependência, a violência e outras questões que às vezes são relacionadas aos usuários não são fatores intrínsecos às drogas. A proibição da sua utilização não acaba com dependência nem com a "violência" relacionadas a elas. Violência é fruto de revolta e revolta não brota do ecstasy. A infelicidade de uma condição miserável traz revolta, a necessidade de trabalhar 14 horas por dia causa revolta, a burocracia em qualquer trâmite governamental para fatores às vezes imprescindíveis para um indivíduo traz revolta. E se as drogas podem potencializar a revolta, que se proíbam as drogas, correto? Errado! Ao invés de observar a origem da violência, cala-se a voz do revoltado pela condição miserável, de explorado econômica e politicamente e vê-se nas drogas o grande motivo desse distúrbio que é o reflexo de uma sociedade entrando em colapso. O medo daquele que se revolta é o medo do questionamento da condição servil do homem. Não estou querendo dizer que o consumo de drogas gera revoluções, estou simplesmente afirmando que tanto o medo do revoltado quanto o medo do usuário provêm da mesma natureza: a necessidade de que todos estejam sob patamares aceitáveis de submissão em tempo integral.

Sugiro que se revejam detalhadamente as condições de trabalho, o efeito da religião e os micro-fascismos que tentam calar diferenças em todo o território, pois tenho a certeza de que estes fatores, de fato, são os que revoltam. Alguém topa?

Não: todas estas questões assinaladas acima estão de acordo com a ordem atual.

Então, que se proíbam as drogas e se arme uma guerra contra os pobres. É bem mais fácil. Ok, esqueçam este texto.

Fonte: Jornal de Debates

0 comentários:


 

tudo livre por garganta sativa